Carvões acesos
Eu sei, as cicatrizes falam
E as palavras calam
O que eu não me esqueci[1]
O desejo de elaborar esta exposição surgiu de minha afeição pela música Fera ferida, de Roberto Carlos, especialmente pela estrofe que utilizo como epígrafe deste texto, que sempre me remeteu ao caráter enigmático e indelével da paixão e do desejo, e também por sua linguagem, que se comunica mais pelo corpo do que pelas palavras — algo indizível que percorre o corpo feito eletricidade e atrai (ou repele) outros corpos de forma magnética. Tais pulsões do desejo e da paixão, bem como as marcas e a incandescência criadas pelo amor, são o tema desta mostra.
Carvões acesos reúne mais de 50 artistas, misturando gerações, territorialidades, contextos de produção, gêneros e sexualidades, e inclui trabalhos em diferentes mídias, como pintura, desenho, gravura, fotografia, vídeo e escultura, além de contar com material documental.
Três núcleos compõem a exposição: Enlaces, Metáforas do sexo e Metáforas do amor. As obras apresentadas exploram a proximidade entre os corpos, a tensão do erotismo, o magnetismo do desejo e múltiplas representações de casais, assim como as elaborações metafóricas e poéticas do amor e as expressões, ora mais cifradas, ora mais explícitas, do sexo.
Na primeira sala, no núcleo Enlaces, são apresentados trabalhos que mostram aproximações, entrelaçamentos e tensões entre corpos, ora de forma figurada, ora metafórica, tanto em cenas de tom romântico quanto em composições de viés erótico.
O tema do núcleo se distribui em três seções, sendo a primeira delas uma grande parede com uma composição de obras que mostram representações de casais ou duplas em que há uma aproximação corporal. A sequência inicia-se de forma mais romântica, com um guache de Ismael Nery, no qual vemos um casal se olhando, com seus corpos em uma quase fusão. Ao lado, uma misteriosa pintura de Oswald de Andrade Filho, que mostra duas mulheres vestindo luvas, também se entreolhando e em uma mescla corporal. A mulher à esquerda oferece uma maçã à outra, criando uma cena que pode sugerir uma interpretação bíblica, em possível referência à passagem do Velho Testamento em que Eva oferece uma maçã a Adão, mas aqui sem a presença da figura masculina.
Seguindo a ordem do que é apresentado na parede, temos uma composição de trabalhos onde o tema do enlace corporal é desenvolvido por meio de distintas abordagens e técnicas: a fotografia de Mayara Ferrão feita por inteligência artificial, as xilogravuras de Hudinilson Jr., os desenhos de Nery, Yan Nicolas e Carlos Mota, a escultura em madeira de Louco e as pinturas de Victor Arruda e Siron Franco. A tela de Siron é uma representação de um casal na cama, em uma fusão total dos corpos, concluindo a enunciação do envolvimento corporal visto no guache inicial de Nery.
Na segunda seção de Enlaces, temos um grupo de trabalhos com cenas românticas de beijos, incluindo as fotos do coletivo Retratistas do Morro e de Mayara Ferrão, a pintura de Farnese de Andrade e as esculturas de João da Lagoa, Chico Tabibuia e Allan Weber. A representação figurada vai se dissolvendo na sequência seguinte de trabalhos, que expande a noção de casal e faz uso de apresentações metafóricas e conceituais, como nas duplas de camisas de Rafael Amorim e de gilettes de Marcos Chaves (ambas fazendo referência ao casamento em seus títulos), nos desenhos da série Os dedicados de Leonilson, no ménage de chinelos de Julio Callado, no triângulo amoroso de Antonio Dias, nas cabeças de Luiz Roque, nas bolas de Edgar de Souza, no “2 em 1” e na “dupla” de Jonathas de Andrade, e na tensão sexual das fotografias de Alair Gomes.
No segundo núcleo da mostra, Metáforas do sexo, temos duas paredes com composições de obras que mesclam representações de falos e vulvas e trabalhos que abordam a sexualidade de forma metafórica.
Em Vontade de saber, Thiago Honório perfura o volume 1 da História da Sexualidade, de Michel Foucault, e passa pelo orifício o caule de um antúrio, flor de caráter sexual, pois em sua morfologia há formas que remetem tanto ao falo quanto à vulva. Em torno deste trabalho, temos um desenho de Moacir representando uma figura trans alada e nua, uma pintura de Fefa Lins, na qual vemos uma pessoa cujo rosto está fora do plano da tela, masturbando-se com um dildo e rodeada por uma paisagem natural, e, por fim, uma tela de Décio Noviello com a silhueta do casal em uma cena de sedução.
Ainda neste núcleo, o trabalho O sonho do executivo, de Amélia Toledo, faz uma provocação sobre as fantasias de um homem hétero bem-sucedido, em uma composição de imagens com alusões ao dinheiro e à mulher, culminando em uma pasta de executivo com uma calcinha dentro. Na parede ao lado, são apresentados diversos trabalhos que fazem alusão à vulva, como os desenhos de Cildo Meireles, Wesley Duke Lee e Arthur Barrio, além de outros trabalhos que trazem o tema de forma mais cifrada, como o búzio-vulva de Gabriella Marinho e os desenhos abstratos de Dani Cavalieri produzidos a partir da masturbação. Junto às vulvas, um desenho de Tunga mostra um corpo nu com três pernas e dois sexos, criando uma interessante relação com uma escultura de Chico Tabibuia que representa um Exu com as mesmas características da figura imaginada por Tunga. Ao lado dessa dupla, encontra-se uma sequência de obras que representam ou aludem ao falo, com fotografias de Bauer Sá e Robert Mapplethorpe, esculturas de Chico Tabibuia e um caderno de desenhos de Hudinilson Jr.
Por fim, no terceiro núcleo, Metáforas do amor, são exibidos trabalhos com representações metafóricas e textuais do amor. Em uma parede, estão expostos três trabalhos nos quais a imagem do coração ou a palavra “amor” estão inscritas. Na fotografia de Rosangela Rennó, da série Cicatrizes, vê-se o peito de um homem com a palavra “amor” tatuada. Já Dora Longo Bahia escreve “amor” e “ódio” com alfinetes sobre telas de couro, criando uma imagem que remete à tatuagem. E, por fim, um bronze de Panmela Castro, em que a artista reproduz a casca de uma árvore, na qual se lê entalhado: Autoestima e lucidez. Na pintura de Katie van Scherpenberg, um fundo que remete a um papel pautado tem o espaço entre linhas tomado por garatujas, e dentro desse emaranhado de linhas surge a palavra “amor”. Em frente a esses três trabalhos, encontra-se um objeto de Pablo Accinelli intitulado Destino común, que consiste em uma caixa de papelão trancada por quatro cadeados, com um trevo de quatro folhas decorando sua tampa. A obra nos faz pensar em algo muito precioso que necessita ser cuidado e guardado, tal qual um relacionamento amoroso.
Em outra seção do terceiro núcleo, temos um conjunto de representações do coração, a metáfora mais conhecida e difundida para o amor, que surge de forma mais estilizada nos trabalhos de Vilma Pasqualini, Farnese de Andrade e Rochelle Costi, ou em representações mais realistas, como na fotografia de Gabriella Marinho e na pintura de Ramon Salles.
As memórias do amor são elaboradas em dois trabalhos de Rafael RG, nos quais as ideias de amor e liberdade são articuladas por meio de trabalhos instalativos que fazem uso de material documental e textual. As reminiscências do amor são exploradas por Sérgio Gurgel em um vídeo que reúne relatos sobre a vida amorosa de duas senhoras rezadeiras do Sertão Central do Ceará, região de nascimento do artista.
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O título da exposição, Carvões acesos, foi emprestado de um poema em forma de lista intitulado Coisas para o ninho, escrito por Patrícia Galvão (Pagú) em 1939, enquanto esteve presa pela ditadura varguista na Casa de Detenção, no Rio de Janeiro, cujo manuscrito está exposto na mostra.
Coisas para o ninho[2]
Um cobertor grande grande
3 colchas brancas grandes
6 lençois
8 fronhas
4 toalhas de banho (I have two)
6 toalhas de rosto
3 pijamas para G.
3 pijamas para Pat
3 camisolas para Pat
(Muitos beijos na última meia dúzia)
Carvões acesos, permanecendo